Quando um especialista disser que precisa de sessenta dias para fazer um projeto, não pergunte: – Dá para fazer em vinte se a gente colocar uns recursos extras?

Meu amigo Domenico Massareto, o popular Shaolin, esteve recentemente em São Francisco Xavier, interior de São Paulo, e voltou de lá com uma daquelas histórias irresistíveis que a gente ouve de tempos em tempos e que imediatamente faz questão de incorporar ao anedotário pessoal.

Na verdade, uma mistura de história, lição de vida, pequeno tratado de filosofia e por aí vai.

Ao chegar na pousada, meu amigo foi logo informado sobre os diversos destinos turísticos da cidade, incluindo uma certa casa de um certo senhor no alto de uma montanha, famoso na cidade por ser um fabricante de… máscaras de carnaval de Veneza. Isso mesmo, máscaras de Carnaval de Veneza.

Meu amigo, como todo representante legítimo do sexo masculino da espécie, emitiu um tipo de grunhido ancestral ante a perspectiva de subir uma montanha para apreciar a arte milenar de um ancião nos cafundós do interiorzão de São Paulo.

Seu cérebro percorreu rapidamente a lista de possibilidades que ia da banheira de hidromassagem ao fondue fumengante acompanhado de um bom vinho, seguido de uma noite de sono para ficar na história. E achou todas as possibilidades melhores do que o Carnaval de Veneza com sotaque caipira. Incluindo ficar vendo “Pânico” na TV a cabo do quarto.

Mas o cérebro feminino, bem… o cérebro feminino não funciona exatamente pela mesma lógica. E lá se foi meu nobre amigo morro acima, resfolegando e esbravejando feito um velhinho rabugento. Mas, como veremos, mesmo um programa que aparentemente tem cotação cinco machadinhas pode reservar surpresas interessantes.

Vencida a ladeira, apresentações devidamente realizadas, começa o artesão a explicar o seu negócio a um cada vez mais maravilhado publicitário paulistano (se a memória não me trai, foi mais ou menos assim que meu amigo me contou).

– Tá vendo isso aqui? Isso aqui é o que eu faço. Máscaras de Carnaval de Veneza. Só de Carnaval de Veneza. De outro tipo, não faço. E sabe quanto tempo leva pra fazer cada uma? Sessenta dias. Nem mais, nem menos, sessenta dias. Pagando metade no sinal e metade na entrega.

E sem deixar que meu amigo interrompesse, emendava:

– Aí o sujeito chega aqui e pergunta: quanto tempo leva se eu pagar à vista? E eu respondo: sessenta dias. Sessenta dias é o tempo que leva pra fazer, ué. Não importa se pagar à vista ou em dobro, é sessenta dias. Um pessoal de Hollywood já quis encomendar máscaras comigo para um filme. E eu respondi: não faço. Se cada uma leva sessenta dias, e vocês querem fazer o filme agora, não tem como. Como é que eu vou fazer dezenas?

A esta altura o Shaolin já tava repensando sua carreira, seus prazos, as pressões dos seus clientes, e prosseguiu ouvindo.

– E tem outra coisa: eu não mando pelo correio, porque amassa. Tem que vir aqui encomendar e buscar. E você pensa que o pessoal não vem? Vem. Você acha que eu não fiquei famoso? Olha eu aqui na capa de umas revistas americanas e européias. Vivo bem aqui, há décadas, com a minha velha, e olha só a vista que eu tenho.

Shaolin contemplou o belo vale à sua frente, e eu tenho cá pra mim, embora ele não tenha me dito, que sentiu uma inveja branca. Eu, pelo menos, só de ouvir a história já senti.

E o que isso tudo tem a ver com comunicação, propaganda, meios digitais, interatividade? Nada. E tudo.

São tempos estranhos, esses em que estamos vivendo. A pulverização das mídias causada pelos meios digitais, a instantaneidade das mudanças provocadas pelo avanço voraz da tecnologia, o novo perfil de um novo consumidor que está com o poder em suas mãos… tudo isso se constitui num bombardeio de informação na cabeça do profissional de comunicação – seja ele digital ou não. E às vezes, é praticamente impossível não perder o foco. Quando está todo mundo com pressa, é uma reação até natural correr para não ser atropelado. Só que se a gente não respirar fundo, corre-se o risco de correr para o lado errado. Quer um exemplo?

Esse admirável mundo novo tem gerado uns tipos esquisitos. Um deles é o extremo oposto do velhinho de São Francisco Xavier: o multiespecialista.

Gente que acredita ser capaz de ser bom em tudo, que fragmenta sua atenção em ene pi fatorial frentes de trabalho, que emite opiniões e conceitos baseados em conhecimentos pra lá de superficiais. Gente que despreza o valor da experiência em prol do culto à inovação. O multiespecialista é ansioso, veloz. Reinventa a roda. Age como se a história só começasse quando ele embarca nela. Antes dele, o nada. O multiespecialista nega o passado, acaba negligenciando o presente e às vezes, sem sequer se dar conta, compromete o futuro.

Se você pensar um pouquinho, vai se lembrar de ter encontrado algum exemplar numa sala de reunião. É aquele cara que sempre responde “ah, isso é fácil…” ou “ah, tranquiiiiilo…” toda vez que você toma ar para levantar algum questionamento mais profundo sobre alguma idéia. E, cá entre nós, não sem uma certa razão, porque depois o problema vai passar para a alçada de algum… especialista, encarregado de botar juízo na história pensando em coisas chatas e aborrecidas como prazo, preço, gente disponível e por aí vai.

Não se trata aqui de pregar o trabalho em compartimentos estanques. Não estou nostálgico dos anos 50 e 60, muito pelo contrário. Acredito que uma visão multidisciplinar agrega valor a qualquer profissional. Mas daí a ser multiespecialista vai uma distância razoável. Eu diria que em toda a história da humanidade, só Leonardo da Vinci conseguiu. Então, para nós, reles mortais, é sonhar um pouquinho alto demais, não acha?

Assim como fazer “a” máscara de Veneza leva tempo, exige dedicação, comprometimento, experiência e, porque não dizer, obsessão, desenhar uma estratégia interativa consistente e eficaz para um cliente, também.

Fazer um site criativo, com ótima arquitetura e usabilidade, bem testado e devidamente preparado para metrificação, idem. Então, quando um especialista disser que precisa de sessenta dias para fazer um projeto, vamos parar de uma vez por todas com a história de “se a gente colocar uns recursos extras, dá pra fazer em vinte?”. Não, não dá. Pelo menos, não “o” projeto. Leva sessenta dias para fazer “o” projeto. E no final das contas, é isso que interessa.

Um homem tem que acreditar em alguma coisa, pelo amor de Deus. E um profissional também. O velhinho de São Francisco Xavier acredita. E você?

Por Tulio Paiva
[Webinsider]